Torcedores brasileiros estranham, mas aderem à comida dos Jogos
Por Maurício Savarese
PEQUIM (Reuters) - O exotismo de algumas iguarias daculinária chinesa está presente nos locais de competição dasOlimpíadas, e os brasileiros, antes reticentes, acabaramaceitando as salsichas de milho, as barras de macarrãoinstantâneo cruas e os salgadinhos de arroz.
A organização dos Jogos de Pequim proíbe a entrada nosespaços de competição com comida e bebida comprados do lado defora, o que obriga os torcedores a comer apenas o que está nocardápio oficial, pobre em nutrientes e rico em gordura ecarboidratos.
O carioca James Kelmer, 35, veterano de três Olimpíadas,diz que nunca a dieta nos locais de competição foi tão ruim,mas acabou se adaptando aos quitutes chineses conforme os diaspassaram.
"No dia da abertura do Ninho de Pássaro eu comi umas duasdaquelas salsichas embaladas a vácuo e recheadas de milho.Achei terrível, mas era o mais barato, custava menos de umreal. Fui variando e comendo de tudo. Hoje eu já tiro de letra,parece bom até", afirmou o militar da Aeronáutica.
Kelmer também se tornou fã dos artificiais salgadinhos dearroz e do pão doce chinês, que lembra um bolo recheado defrutas. Mas quando o estômago se cansa após um dia inteiroassistindo a competições, ele apela para o suco de laranja e abarra de chocolate.
"Eu não tenho frescura com comida e quando janto, só vou arestaurante chinês. É uma comida deliciosa. Até agora nãoentendi o motivo de eles não venderem nada daquilo nos locaisde competição. Desde minha primeira Olimpíada, em 1996, eucomia e jantava comida de verdade ao lado de onde os esportesrolavam. Desta vez, não dá."
ALMOÇO DIFÍCIL
A dona de casa mineira Idaly Silveira, 57, sente bastantefalta de preparar os seus próprios almoços, mas se vira com aspoucas banquinhas fora dos locais de competição que vendemyakisobas e porções de arroz com frango xadrez.
"Quando a gente vem pro estádio olímpico, é garantia dealmoço. Mas quando passei o dia no tênis, por exemplo, era sóaquele cachorro-quente embalado e frio, cheio de catchup porcima. Ou então salgadinhos de batata com algum bolinho doce.Nesses dias é muito difícil aguentar essa bomba no estômago",comentou.
O filho mais novo de Idaly, Roger, 16 anos, comemorou pelomenos uma das oferendas da culinária olímpica.
"Sempre que eu como macarrão instantâneo cru em casa tomobronca. Agora isso acabou, porque aqui eles vendem para comerexatamente desse jeito, jogando o tempero por cima. Sem contarque esse é o mais barato de todos, custa dois iuans(equivalente a 50 centavos de real). Mas comer aqui cansa, temde beber muito refrigerante e suco para compensar", diz.
Também mineiro, o aposentado Juraci Gomes, 71, diz quetentou a sorte com os policiais chineses e se deu bem.
Escaldado pelos primeiros dias de competição no vôlei,escondeu na mochila dois filés de frango e uma leve salada emfinas embalagens de plástico, jogou uma camiseta da seleçãobrasileira por cima e entrou sem ser perturbado.
"Passei dois dias comendo mal aqui e resolvi tentar trazerpara ver se me barravam. Pode até ser que tenham notado e medeixaram passar por causa da idade, mas que consegui, consegui.A gente fica achando que eles vão barrar tudo, mas sempreescapa alguma coisa. Pelo menos hoje eu vou comer direito",brincou.
O mineiro, que foi aos Jogos de Atenas-2004, disse que nãotentaria burlar a segurança se o cardápio oferecesse opçõesmelhores para quem quer controlar o colesterol.
"Quem for diabético, então, está perdido aqui. Na Gréciaeles tiveram mais preocupação com gente da minha idade e gentedoente quando o assunto é comida."
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